Meio Ambiente

Costão de Ponta Negra em Maricá guarda rochas de até 2,1 bilhões de anos e marcas da abertura do Atlântico

Muito além da paisagem que atrai moradores e visitantes, o Costão de Ponta Negra, em Maricá, é um dos principais patrimônios geológicos do litoral fluminense. Entre a Praia de Ponta Negra, a Gruta da Sacristia e o trecho próximo a Jaconé, as rochas preservam registros de antigas colisões continentais, erosão marinha e da abertura do Oceano Atlântico Sul.

O local integra o território do Geoparque Costões e Lagunas e reúne formações com grande valor científico, didático, turístico e ambiental. Para quem observa apenas a paisagem, o cenário é formado por mar, pedras e falésias. Para a geologia, porém, é uma janela para acontecimentos que moldaram o planeta ao longo de bilhões de anos. Geoparque Costões e Lagunas

Rochas antigas contam a história de Maricá

No Costão de Ponta Negra é possível observar o contato entre diferentes conjuntos de rochas metamórficas. De um lado estão os ortognaisses associados ao Domínio Tectônico Cabo Frio; do outro, rochas paraderivadas, originadas de antigos sedimentos marinhos transformados por pressão e calor durante colisões continentais.

Segundo o Geoparque Costões e Lagunas, algumas rochas da área foram datadas em cerca de 2,1 bilhões de anos, entre as mais antigas do Domínio Tectônico Cabo Frio.

Também são encontrados ortoanfibolitos, mais escuros, e pegmatitos, compostos principalmente por minerais como quartzo, feldspato e biotita. Essas formações mostram como o território foi submetido a intensas transformações geológicas antes mesmo da configuração atual dos continentes.

Diques de diabásio registram abertura do Atlântico Sul

Um dos elementos mais marcantes da Praia e da Gruta da Sacristia são os diques de diabásio: faixas escuras de rocha que cortam formações mais antigas.

Esses diques são fraturas preenchidas por magma que subiu quando a crosta continental começou a se romper. Ao esfriar, o material formou o diabásio, rocha ligada ao processo de abertura do Atlântico Sul, há cerca de 130 milhões de anos.

As formações não “separaram” os continentes por conta própria, mas funcionam como evidências geológicas desse período de ruptura entre a América do Sul e a África.

Na Sacristia, o dique de diabásio atravessa Ponta Negra e segue em direção ao mar, apontando para a área dos beachrocks de Jaconé, também conhecidos como rochas de Darwin.

Gruta da Sacristia foi moldada pela erosão

A Gruta da Sacristia é um dos pontos mais conhecidos de Ponta Negra. Sua formação está relacionada à erosão diferencial, processo em que diferentes rochas se desgastam em ritmos distintos devido à ação da água, do vento, do sal e das ondas.

Na área, estruturas de ortoanfibolito sofrem alteração e erosão mais intensa que o gnaisse. Com o passar do tempo, esse desgaste ajuda a formar a cavidade natural que caracteriza a gruta.

O resultado é uma paisagem de grande beleza cênica e importância científica, onde processos normalmente estudados em livros podem ser observados ao ar livre.

Boudins mostram pressão de antigas colisões continentais

Outro destaque do Costão de Ponta Negra são os boudins, estruturas deformadas que lembram “salsichas” de rocha. O nome vem do francês boudin, termo usado justamente por causa do formato.

Essas estruturas foram formadas quando diferentes tipos de rocha responderam de forma desigual à pressão e à deformação durante antigas colisões continentais. Na Sacristia, o ortoanfibolito se deformou mais intensamente, enquanto o gnaisse apresentou outro comportamento.

Os boudins ajudam a explicar, de forma visual, processos como metamorfismo, deformação da crosta terrestre, pressão, temperatura e erosão.

Visita da Unesco reforçou importância do geossítio

Em 2024, uma missão da Unesco visitou a Gruta da Sacristia durante a avaliação do dossiê do Geoparque Costões e Lagunas como aspirante à condição de Geoparque Mundial da organização.

A visita incluiu a apresentação dos registros geológicos da região e das ações de valorização do patrimônio natural. O processo reforça a relevância do local para pesquisa, educação ambiental e geoturismo. Prefeitura de Maricá

Ponta Negra tem potencial para o geoturismo

O Costão de Ponta Negra reúne, em uma mesma paisagem, praia, restinga, lagoa, gruta, farol, pesca artesanal e formações rochosas de grande valor científico.

Esse conjunto amplia o potencial de Maricá para o geoturismo, modalidade que valoriza paisagens naturais e explica ao visitante como rochas, relevos e ecossistemas ajudam a contar a história da Terra.

A preservação é fundamental para manter esse patrimônio acessível às próximas gerações. Não retirar pedras, evitar lixo, respeitar a sinalização, não fazer pichações e redobrar a atenção em dias de mar agitado são atitudes essenciais para proteger a área.

O Costão de Ponta Negra mostra que Maricá é mais do que praias e lagoas. É também um território onde a história do planeta permanece visível nas rochas.